A gente se impressiona com a generosidade espontânea como quem vê um cometa riscando o céu: bonito, raro, quase inacreditável. E é curioso, porque isso deveria ser o normal. Deveria ser a regra simples do convívio: repartir quando dá, cuidar sem anúncio, lembrar que o outro também é gente inteira, com fome, pressa, cansaço e história.
Talvez a gente se espante porque o mundo, do jeito que anda, vai ensinando a economizar o coração. A gente aprende a não pedir, a não oferecer, a não “invadir o espaço” do outro. Aprende a desconfiar do gesto bom, como se gentileza tivesse sempre um contrato escondido. E, aos poucos, vira hábito andar de olhos baixos, cada um na sua ilha, defendendo o pouco que tem, mesmo quando o pouco caberia em dois.
Agora a pouco, no ônibus, sentido Porto Alegre/Lajeado, foi diferente. Um rapaz ao meu lado me ofereceu um salgado que ele comeria, antes mesmo de abrir. Antes do primeiro pedaço, antes do “é meu”. Como quem diz, sem dizer: “você está aqui comigo, então isso também pode ser seu”. Um gesto pequeno, quase nada no tamanho, mas enorme no significado. Porque ali tinha uma escolha: ele poderia simplesmente comer, olhar para a janela, seguir a vida. Mas ele fez o contrário: abriu uma fresta de humanidade no meio do automático.
E é isso que a generosidade espontânea faz: ela quebra o feitiço da indiferença. Ela lembra que a regra não precisa ser a distância. Que ainda existe um tipo de riqueza que não diminui quando é dividida, pelo contrário, aumenta. Um salgado repartido não é só comida, é uma mensagem silenciosa dizendo que o mundo pode ser mais leve por alguns minutos.
No fim, talvez a gente se impressione porque reconhece, naquele gesto, a vida como ela deveria ser. Simples assim: menos muralhas, mais mesa. Menos “cada um por si”, mais “tamo junto”. E se um ato tão pequeno consegue acender isso dentro da gente, é sinal de que a regra ainda está viva, só esperando mais gente corajosa o bastante pra praticá-la sem fazer barulho.

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