🤍 (leia esse texto ouvindo Ludovico Einaudi)

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Uma vida que se abre é como uma janela depois de anos fechada: entra luz, entra vento, entra poeira também. Ela não pede licença, ela só acontece. E quando acontece, muda o ar dentro da gente de um jeito irreversível.

Uma vida pode ser esquecida, sim. Porque o tempo tem esse dom cruel de apagar detalhes: o dia exato, a roupa, as palavras, a sequência perfeita dos acontecimentos. A memória é uma maré: ela recua, ela confunde, ela some com o que a gente jurava que tinha guardado. Às vezes a gente tenta lembrar e só encontra um contorno, um cheiro distante, um sentimento sem nome.

Mas desvista a vida não pode ser.

Porque há vidas que, quando se abrem, vestem a gente por dentro. Viram pele nova. Viram uma coragem que antes não existia, um “não” que finalmente ganha força, um “sim” que deixa de ser medo disfarçado. Vira um jeito diferente de encarar o espelho, de caminhar na rua, de responder mensagens, de respirar quando o mundo aperta.

Uma vida que se abre é um momento em que você se vê – e esse encontro não tem volta. Mesmo que você tente voltar ao que era, já não encaixa. O antigo “você” fica como uma roupa guardada: você pode até pegar, cheirar, lembrar do tamanho, mas quando tenta vestir falta espaço. Ou sobra vazio. Porque o corpo mudou. Porque a alma mudou.

E é por isso que ela pode ser esquecida, mas não desvista: ela deixa marcas que não são cicatrizes, são costuras. Pontos firmes que seguram o que você aprendeu. Aquele dia em que você se permitiu, aquele instante em que você escolheu, aquela frase que doeu e, ainda assim, te libertou. Pode virar silêncio na lembrança, mas continua falando no jeito como você vive.

No fim, uma vida que se abre não é só uma fase. É um portal. E depois que você passa, por mais que o tempo apague os detalhes do caminho, você nunca mais consegue fingir que não viu o outro lado. Você segue, com a roupa nova do que descobriu – mesmo quando não percebe – e cada passo prova, de um jeito discreto e definitivo: certas aberturas não se fecham, elas viram você.

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