Tem gente que nasce com endereço certo no peito. Eu não.
Eu sempre tive mais estrada do que sala, mais “talvez” do que “fica”. E por muito tempo eu confundi lugar com cenário: a rua certa, a cidade certa, a casa bonita, a vista bonita, o bar que toca a música que encaixa, o quarto arrumado que dá sensação de começo. Eu achava que era isso: encontrar um lugar e, pronto, enfim caber.
Mas lugar não é só geografia. Lugar é quando o corpo para de pedir desculpa por existir. É quando a mente desliga os alarmes por alguns minutos. É quando o silêncio não parece castigo, parece descanso. Lugar é onde você respira sem encurtar a respiração, onde você não precisa estar pronto o tempo todo, onde você pode ser um rascunho sem vergonha.
Eu passei por muitos lugares que eram lindos por fora e vazios por dentro. E também por lugares pequenos, simples, quase invisíveis, que me abraçaram sem tocar. Um banco qualquer numa noite qualquer. Uma calçada depois de um dia difícil. Um canto do mundo em que ninguém me pediu pra ser melhor, só me deixou ser.
E aí eu entendi que talvez eu esteja procurando do jeito errado. Porque não é sempre que a vida entrega o “meu lugar” como se fosse um ponto no mapa com uma estrela em cima. Às vezes ela entrega em migalhas: um ritual, uma música, um caminho de volta, um café tomado devagar, uma conversa que não pesa, uma manhã em que eu me reconheço no espelho sem brigar comigo.
Eu tenho essa mania de achar que ainda não é. Ainda não cheguei. Ainda falta. E falta mesmo. Mas também existe uma verdade quieta crescendo em mim: eu não estou perdido, eu estou em descoberta. Eu estou aprendendo a construir lugar por dentro, para que qualquer fora não me derrube tão fácil.
Um dia eu descubro o meu lugar. E, quando eu descobrir, talvez nem seja um lugar perfeito. Talvez seja só um lugar honesto. Um lugar onde eu não precise fugir. Um lugar onde eu consiga ficar, nem que seja por hoje.
E se esse lugar ainda não apareceu, tudo bem. Eu sigo andando com cuidado, guardando sinais, juntando pedaços de casa em mim. Porque eu acredito nisso, de um jeito teimoso e bonito.
E sobre lugares, um dia eu descubro o meu.
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