Camisa xadrez

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Você sentada naquele banco, como se o mundo fosse barulhento demais e só ali houvesse um pouco de silêncio.

Camisa xadrez, mangas um pouco dobradas, o cabelo caindo de um jeito distraído, como se nem percebesse o impacto que causava em quem olhava de longe.

Eu olhei.

Uma, duas, três vezes. E em todas elas o encanto foi imediato, como um estalo, como se alguém tivesse acendido a luz dentro de um quarto que eu nem sabia que estava escuro.

Lembro de pensar que você parecia deslocada dali, como eu. Como se aquele não fosse o seu lugar, mas, por alguma razão misteriosa, nós dois tivéssemos sido deixados no mesmo canto da festa, na mesma noite.

Eu respirei fundo, fingi uma coragem que não tinha e caminhei até você. Cada passo era uma conversa inteira que eu ensaiava na cabeça. Qualquer coisa que me deixasse permanecer ali, perto de você.

Queria eu poder voltar naquela noite como quem rebobina uma fita antiga, sentar de novo ao seu lado naquele banco e me encantar outra vez como se fosse a primeira.

Talvez eu dissesse mais, talvez eu dissesse menos, talvez eu só ficasse em silêncio só pra ter certeza de que o momento não acabaria tão rápido.

Mas, mesmo que eu não possa voltar, eu guardo aquela cena como um segredo bonito: você, na sua camisa xadrez, eu, com o coração tropeçando, e aquele banco simples sendo testemunha discreta da noite em que o universo continuou o mesmo para todo mundo, menos pra nós dois.


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