A gente é um mosaico de gente e de som.
Ninguém se constrói sozinho. A cada pessoa que passa pela nossa vida, alguma coisa em nós muda de lugar: um jeito de falar que a gente pega sem perceber, uma risada que vira nossa, uma mania que fica, uma cicatriz que ensina. Do mesmo jeito, cada música que ouvimos abre uma janelinha nova dentro da cabeça – e, quando percebemos, já não somos mais os mesmos de antes do play.
Tem gente que entra na nossa vida como se fosse faixa 1 de disco clássico: chega com impacto, muda o clima do ambiente, reorganiza tudo. Tem outras pessoas que são lado B: discretas, profundas, daquelas que você só entende de verdade depois de ouvir com atenção. E as músicas… ah, as músicas são como cartas que o universo escreve pra gente usando acordes. Tem canção que vira abrigo, outra que vira grito, outra que vira abraço de quem já foi embora.
Ir aos dois shows do Oasis em São Paulo, na despedida da Live ’25, foi justamente isso: ver, ao vivo, a soma de todas essas pessoas e todas essas músicas que me moldaram ao longo dos anos. Não era “só” um show. Era uma espécie de espelho gigante montado no estádio, refletindo quem eu fui, quem eu sou e quem eu ainda quero ser.
Na primeira noite, parecia que eu estava entrando dentro de um velho sonho. As luzes do estádio, a multidão cantando junto, gente com camiseta surrada da banda, casais abraçados, amigos que se reencontraram ali depois de anos… cada rosto contava uma história. E, no meio daquilo tudo, eu também era história de alguém. Eu era o amigo que conheci na fila pro show, o abraço apertado no refrão. A música fazia a ponte invisível entre nós.
Quando as primeiras notas soaram, não era só nostalgia. Era como se todos os momentos da minha vida em que aquelas músicas tocaram – no fone de ouvido, no quarto escuro, numa viagem longa, em dias bons e ruins – tivessem decidido aparecer ali, ao mesmo tempo. Cada acorde parecia dizer: “eu vi você crescer”. E, de alguma forma, vi a mim mesmo crescendo enquanto cantava junto.
Na segunda noite, já não era o deslumbramento da novidade. Era outra coisa: a consciência de que era despedida. De que aquele capítulo da história estava ganhando um ponto final bonito, barulhento e luminoso. Eu sabia o caminho até o estádio, sabia onde as filas se formavam, onde a voz da multidão ecoava mais forte. E justamente por isso, cada detalhe parecia mais nítido: o frio na barriga antes do show começar, o olhar cúmplice com desconhecidos, a sensação de “não acredito que estou vivendo isso de novo”.
Ali eu entendi, de um jeito quase físico, como a vida da gente é feita de encontros. Encontro de irmãos que voltam a dividir o palco. Encontro de fãs que carregam décadas de expectativa no peito. Encontro de versões nossas: o adolescente que descobriu a banda, o adulto que sobreviveu a tanta coisa ouvindo aquelas músicas, a pessoa de hoje, que canta cada verso com a maturidade de quem sabe que o tempo passa, mas algumas coisas ficam.
Talvez seja isso que a música faz com a gente: pega todas as pessoas que nos marcaram, todos os lugares por onde passamos, todas as versões de nós mesmos… e encaixa tudo em três, quatro, cinco minutos de canção. No meio de um estádio lotado, eu não era só mais um na multidão. Eu era o resultado de todas as mãos que me puxaram pra frente e de todas as músicas que me impediram de desistir.
No fim das contas, saí daqueles dois shows diferente de como entrei. Não porque a banda mudou quem eu sou, mas porque, ali, ficou claro quem eu me tornei por causa de tudo que vivi ao som dela. Somos moldados pelos olhares que nos cruzam, pelos abraços que nos resgatam, pelas conversas que nos desmontam e reconstroem. E, principalmente, pelas trilhas sonoras que nos acompanham, silenciosas, enquanto a vida acontece.
Oasis foi o cenário. São Paulo foi o palco. Mas o verdadeiro espetáculo foi perceber que, no fundo, a turnê mais importante não é a Live ’25, mas é a turnê da nossa própria vida. E, nessa, cada pessoa que conhecemos e cada música que ouvimos é um show inesquecível que deixa marca pra sempre.

Deixe um comentário