Linkin Park, 13 anos depois

por

em

Treze anos.
Esse foi o tempo entre o meu primeiro encontro com o Linkin Park, lá em Porto Alegre, no longínquo ano de 2012 e a noite de ontem, aqui em Curitiba, num show que mudou tudo de novo.

Na primeira vez, eu era quase outra pessoa: mais jovem, mais bruto por dentro, cheio de certezas e completamente perdido ao mesmo tempo. O Linkin Park era a trilha sonora das coisas que eu não sabia colocar em palavras. Treze anos depois, voltei para esse show com cicatrizes novas, histórias que eu nunca imaginei viver e um peso diferente nos ombros. A vida tinha batido mais forte do que qualquer bateria ao vivo.

O show começou como um soco no peito. O primeiro riff entrou e o público virou uma onda. Não era só grito, era alívio. Pessoas que eu nunca vi na vida cantando as mesmas letras que me acompanharam em noites insones, viagens solitárias, caminhadas em silêncio pra não desabar na frente de ninguém. Cada música era um reencontro comigo mesmo. Treze anos depois, eu estava ali, diante da mesma banda, mas com outro tipo de urgência no coração.

De repente, ao som de ‘Two Faced’ tinha nascido uma roda punk. Aquele círculo caótico, gente trombando, pulando, rindo, deixando a música assumir o controle do corpo. Um pedaço de mim pensou: “Cara, você já não tem mais idade pra isso”. O outro pedaço respondeu: “É exatamente por isso que você tem que ir”.

Entrei.

Foi um turbilhão. Ombros, braços, cotovelos, gente caindo e levantando, todo mundo cuidando de todo mundo enquanto parecia que ninguém cuidava de ninguém. Eu me joguei no meio, gritando o refrão como se estivesse devolvendo pra banda tudo o que ela tinha me dado em silêncio nesses treze anos. Em algum momento, senti um impacto estranho no rosto. Um esbarrão, um tropeço, um choque de cabeça com alguém que também estava perdido ali dentro. Só ouvi o “crec”.

Meus óculos se despediram da minha cara.

Por alguns segundos, tudo virou um borrão de luzes, vultos e cores misturadas. Agachei, tateei o chão, senti uma armação fria e torta, uma lente inteira, a outra nem sinal. Peguei os restos, coloquei no bolso e comecei a rir. Rir alto, sozinho, no meio da música. Porque ali eu entendi: se eu fosse escolher um lugar no mundo pra quebrar meus óculos, seria exatamente ali. No olho do furacão. No meio de um show do Linkin Park, treze anos depois, cercado de estranhos que, de algum jeito, me conheciam.

Voltei pra fora da roda, ofegante, suado, enxergando o mundo pela metade. E foi assim, com a visão embaçada e o coração em HD, que a vida seguiu e a experiência agora tinha outro tom.

Aqui eu chego na principal mudança do Linkin Park que eu assisti aos 17 e o Linkin Park que eu assisti com 30: Emily Armstrong.

Eu já tinha visto vídeos, já tinha ouvido falar da presença dela, mas nada me preparou pro que aconteceu ali. Emily não entrou como convidada tímida na banda, ela entrou como se aquele palco tivesse esperado por ela a vida inteira. Parecia nos dizer a todo momento: “Eu sei onde estou, sei o tamanho dessa banda, e mesmo assim vou deixar a minha marca”. É nítida a felicidade estampada na cara da banda, mas principalmente de Mike Shinoda em poder fazer novamente, diante de milhares de pessoas, aquilo que mais faz sentido para ele. O Linkin Park está de volta e, certamente, orgulharia o grande Chester Bennington.

Quando Emily abriu a boca pela primeira vez, sua voz cortou o ar como uma lâmina, mas ao mesmo tempo abraçou cada rachadura que as músicas do Linkin Park sempre carregaram. Era como ouvir a dor ganhar outra textura, outra cor, outro rosto. Ela não tentava imitar ninguém, não fazia pose, não pedia licença. Emily entrava nas músicas como quem entra em casa: à vontade, intensa, verdadeira.

Em ‘In The End’, num refrão gritado por todo o estádio, tudo pareceu se alinhar. A banda tocando como se fosse a última noite do mundo, Emily rasgando a voz em perfeita sintonia com aquela energia, o público em uníssono, e eu ali, meio cego, mas enxergando tudo com uma clareza brutal.

A catarse veio inteira: memórias que eu achava que estavam resolvidas voltaram à tona, dores que eu escondia atrás de piada, fracassos que eu guardava em silêncio. E, entre um verso e outro, uma coisa ficou muito clara: eu não era mais o mesmo de antes, mas o Linkin Park continuava sendo esse lugar estranho e seguro onde eu podia desmontar sem medo. Emily, com a força absurda da sua voz, parecia oficializar isso, como se estivesse carimbando aquele momento: “Você sobreviveu. Olha onde você está agora”.

No final do show, com os óculos destruídos no bolso e a garganta ardendo de tanto cantar, eu senti uma paz estranha. O tipo de paz que não vem quando está tudo perfeito, mas quando a gente olha pro caos e percebe que, ainda assim, segue em frente.

Meu encontro com o Linkin Park, treze anos depois, não foi só um show. Foi um ponto de virada silencioso. Um lembrete de que o tempo passa, o corpo muda, os óculos quebram, mas algumas conexões ficam. A banda, o público, a roda punk, o empurrão, o chão cheio de cacos, e Emily Armstrong incendiando cada verso – tudo isso se juntou numa lembrança que eu vou carregar pra sempre.

Se um dia alguém me perguntar onde eu estava quando finalmente entendi que a música não salva a vida, mas dá motivos pra gente insistir nela, eu vou saber exatamente o que responder: “Eu estava ali, no meio de um show catártico do Linkin Park, treze anos depois do primeiro. Meio cego, de óculos quebrados, com o coração inteiro e Emily Armstrong gritando junto comigo.”


Deixe um comentário