Até o próximo solo, no infinito

por

em

Meu querido Ace,

Tô bem triste, cara. A eternidade ganhou hoje um guitarrista e eu perdi um dos meus primeiros grandes amores.

Lembro da primeira vez que ouvi teu solo rasgando o silêncio do meu quarto. As cordas tremendo, seu som cortante indo direto ao peito. Era como se o universo tivesse descoberto sua cor favorita: aquele tom de rock puro, elétrico, infinito. E, desde então, você virou parte da minha vida, dos meus sonhos, das minhas noites de rebeldia silenciosa.

Como é duro aceitar que aquele que parecia tão grande fosse mortal. Mas é justamente essa vulnerabilidade que traz mais dor, ver a força que você sempre representou dissolver-se na fragilidade da condição humana.

Você foi o “Spaceman”, mas eu te vi além da maquiagem, das explosões nos palcos, das luzes. Você era um jovem sonhador, fugindo de um mundo que muitas vezes não entendia guitarristas estranhos que falavam com o som. Era música e era alma. Você foi um dos caras que me levou até a guitarra. O teu som era o som que eu queria fazer quando ainda muito jovem eu iniciei. O teu solo era o solo que eu queria fazer. Eu lembro de colocar Detroit Rock City na TV do quarto e tocar a minha guitarra em cima da tua.

Que pena, cara.

Mas se há consolo, ele mora nas suas criações. Nos discos que tu ajudou a criar, nas músicas que foram trilha da minha adolescência. Somos muitos que, ao te ouvir, sentimos que fugimos da solidão. E agora, ao te perder, sinto que uma parte de mim ficou muda.

Obrigado por cada acorde que me chamou, por cada verso que acendeu um rosto no escuro. Você foi um dos meus primeiros amores, e continuará sendo, porque amores assim não morrem, ecoam.

Voa alto, Ace. Leva contigo toda a reverência e a música que deixou nos corações. Estarei aqui, escutando o vazio que ficou, esperando que um dia ele se preencha com lembranças e gratidão.

Até o próximo solo, no infinito.


Deixe um comentário