Dona Zada

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Hoje tive uma das experiências mais legais dos meus poucos, mas bem vividos, anos em Curitiba. Sabe o que dizem sobre a capital paranaense, né?! Bom, se tu nunca escutou ou leu sobre, aqui as pessoas têm uma fama de pouco “tagarelas”, digamos assim. Fui ao parque sem esperar nada. Sentei-me num banco, meio gasto pelo tempo, quando ela chegou.

A Zada deve ter seus 55 anos (acabei não perguntando, sempre ouvi falar que jamais deve-se, inclusive!), alguns cabelos brancos, roupas simples, mas com uma elegância que só o tempo ensina. Ela me lançou um sorriso calmo, como se já me conhecesse de outras vidas.

– Posso sentar? Meu filho está jogando basquete e eu gosto de vir assistir. – perguntou com a gentileza que hoje parece quase esquecida.

Foi só isso, e ali começou uma das conversas mais profundas e inesperadas da minha vida.

Falamos primeiro do óbvio: o tempo, o parque, as flores, o sonho do filho em ser jogador profissional de basquete. Mas, aos poucos, ela foi me puxando para um outro lugar – um lugar de lembranças, de aprendizados, de dores que viraram força.

– Sabe, meu jovem, viver é diferente de apenas estar vivo – disse ela, olhando para o filho brincando ao longe. Eu demorei anos para entender isso. A gente corre tanto atrás do que acha que é importante… dinheiro, sucesso, reconhecimento. E quando chega lá, percebe que o mais valioso era o que a gente já tinha: o cheiro do café da manhã, um abraço sem motivo, um domingo com a família.

Fiquei em silêncio. Eu, que estava ali tentando fugir do barulho da vida, percebi que talvez estivesse fugindo da vida em si.

– Você é daqui? – ela me perguntou, com olhos curiosos.

– Agora eu sou.

Ela sorriu, como quem já ouviu isso mil vezes – e sobreviveu a todas.

Houve uma pausa. As folhas caíam devagar, como se o tempo tivesse diminuído o ritmo para nos escutar.

– Aquele ali é meu filho. Quando ele nasceu contraiu uma alergia rara ao leite, nem mesmo podia ficar perto de algo que fosse derivado. Eu mesma nem podia passar creme na pele. Foi um período muito difícil. – disse que ela, quase sem pensar.

Ela olhou para o céu, como se buscasse a resposta lá em cima.

– Bom, depois de muitas noites sem dormir, ele se curou. Hoje sonha em jogar basquete, mas eu já disse para ele que não tem altura para isso.

Fiquei sem palavras. A senhora ao meu lado, com sua voz tranquila e suas verdades simples, me ofereceu algo que ninguém tinha conseguido: paz.

Falei bastante sobre mim, sobre minha família e também escutei muitas histórias sobre os filhos, sobre seus sonhos, sobre suas vidas. Foi lindo, de verdade.

Nos despedimos como velhos amigos. Ela se levantou com a mesma leveza com que chegou. E antes de ir, virou-se para mim e disse:

– Como você se chama?

– Marco Antônio – erguendo a mão para cumprimentá-la e de alguma maneira tentando agradecer pelos 40 minutos que tivemos.

Assim foi.

Voltei para casa levando comigo suas palavras, como quem guarda uma relíquia. Porque aprendi que, às vezes, o universo te dá um presente disfarçado de conversa – e tudo muda.


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