Na vida real, as palavras às vezes me escapam. A língua tropeça, a voz falha, o silêncio me engole. Quantas vezes já quis dizer algo bonito, algo certo, e só consegui balbuciar, como se a boca não acompanhasse a alma?
Mas quando escrevo, tudo muda. No papel, não existe gagueira. A caneta corre livre, os dedos no teclado encontram ritmo, e cada palavra sai inteira, forte, exata. Escrever é o espaço onde minha voz não treme, onde a minha verdade não se perde.
O escritor não gagueja porque a escrita é tradução da alma, não da língua. É o coração falando direto, sem ruídos, sem pausas forçadas. O escritor não gagueja porque o texto dá tempo: tempo de respirar, de escolher, de moldar. No papel, não há pressa. Há apenas a chance de ser completo.
Talvez seja por isso que escrevo: porque aqui eu sou inteiro. Porque aqui, ninguém me interrompe. Porque aqui, a minha voz não falha.
E, quando o mundo me engasga, quando a boca cala eu lembro: o escritor não gagueja.
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