Charlie Watts morreu. Lendário baterista dos Stones. E sim, eu sei reconhecer o impacto cultural que essa partida tem. Mas eu sigo não suportando os velhacos dançarinos.
E nem sempre foi assim.
No início do meu processo de adesão ao rock e de minha aventura ao mundo da música desenvolvendo meu “talento” como guitarrista, eu tinha dois álbuns dos Rolling Stones que eu ouvia muito. Canções como “Heart of Stone”, “The Last Time”, “As Tears Go By”, “Paint It Black”, “Ruby Tuesday”, “She’s A Rainbow” e “Dandelion” eram as favoritas que eu tocava. As canções desses dois discos compunham grande parte da trilha sonora da minha iniciação ao mundo da música.
O que eu não percebi até eu complentar 15 ou 16 anos é que essas músicas são sucessos dos Stones da era de Brian Jones. Quando “Through the Past Darkly” foi lançado, Jones estava fora da banda e morto.
Para a maioria das pessoas, eu percebo, o ápice dos Stones como banda veio depois disso – “Let It Bleed”, “Sticky Fingers”, “Exile on Main Street” até “Some Girls”, mas àquela altura eu já tinha acabado com eles no meu íntimo. Em 2010, eu me aproximei muito dos Beatles e “matei” os Stones dentro de mim. Uma bobeira, eu sei, mas levei a sério uma rivalidade criada pela mídia dos anos 60 de que as duas bandas se odiavam. Uma tremenda de uma mentira! Todos nós sabemos que o que existia entre eles era amizade e carinho, tolos somos nós que alimentamos um conflito que nunca nem teve início. Mas ainda assim, no auge da minha adolescência, fui consumindo cada dia mais o trabalho dos quatro garotos de Liverpool que teve seu auge em novembro de 2010, quando assisti ao show do Paul McCartney em sua primeira vinda à Porto Alegre. Nunca me arrependi de minhas escolhas, por melhor que meus amigos tenham dito que eram os trabalhos pós Brian Jones dos Stones.
Em termos mais simples, os Rolling Stones, especialmente Mick e Keith, se tornaram mais celebridades do que músicos legítimos para mim. Eu já li diversos artigos e comentários de fãs que concordam quando o tema é a qualidade da banda ao se apresentar ao vivo. Os Stones não são bons ao vivo. Os Stones parecem ser mais um evento, uma marca com um logotipo famoso e aqueles dois caras mais parecidos com figuras gigantes do que membros de uma banda trabalhadora, de uma banda boa. Acho que é por isso que nunca gostei muito do Nirvana, por exemplo. Kurt acreditou em sua própria mitologia e se tornou maior do que sua música.
Mas e por que meu desdém não se espalhou para outras megabandas como The Who, Led Zeppelin ou Bowie? Com o Who, era óbvio: Pete Townshend continuou a escrever canções que o ajudaram a trabalhar sua infância, seu país e o significado do rock. Como Neil Young ou, mais ainda, Bruce Springsteen, as canções do Who sempre tiveram seus contextos integrados. Em “Quadrophenia”, fosse verdade ou não, ao ouvir podemos sentir como se estivéssemos vislumbrando a angústia adolescente de Townshend, as dificuldades de adaptação, fracassos românticos. O Who arrasou, mas eles eram confessionais também.
E o Led Zeppelin? Por mais que tenham sido (com razão) acusados de roubar os riffs do blues de outras pessoas, nunca duvidei que fossem bluesmen, que tudo se originava ali. E nunca perdi o interesse em tudo o que Jimmy Page tinha para tocar.
Bowie nunca fingiu ser nada além de um camaleão.
Os Stones, porém, nunca foram mais do que brincalhões. Satânicos por um tempo quando estava em alta ser. Um pouco de reggae um ou dois discos depois. Talvez abraçar uma batida disco quando isso está nas paradas de sucesso? Ocasionalmente, country. Enquanto algumas bandas conseguem integrar com sucesso as últimas tendências em seus sons, com os Stones, sempre me pareceu um empreendimento puramente comercial. Que brilho eles poderiam colocar em seu som para que vendesse?
Sentindo a mudança no rock no final dos anos 70, Townshend confrontou os Sex Pistols, tanto pessoalmente quanto na música; Neil Young também fez isso na sua música. Onde estava Mick naquela época?
O rock and roll tem tudo a ver com mentira. Isso mesmo. É apenas uma mentira, mas é uma mentira que queremos acreditar desesperadamente. Os homens e as mulheres que estão no palco, como qualquer ator, devem nos convencer de que são realmente o que parecem – trovadores, revolucionários, cronistas de nossos tempos, amantes, visionários. Queremos acreditar que as pessoas nessas canções são pessoas que eles conhecem, com quem se preocupam, talvez até eles. E se o ouvinte ou o membro da platéia não acreditar na mentira, todo o castelo de cartas que é a persona de uma banda entra em colapso.
Com os Rolling Stones, nunca tive problemas para ver através da fachada. Não há nada na personalidade de Mick que sugira que ele já foi o cara com o coração partido, ou mesmo que ele estaria “esperando por um amigo”. Desculpe, mas nada na personalidade dos Stones consegue ser convincente.
Eu sei que a maioria de vocês não vai concordar comigo. Isso é bom. Mas aposto que você tem suas próprias versões da mentira do rock and roll em que se recusa a acreditar.
Isso aqui é só meu.

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