Há pouco mais de seis meses eu recebi uma ligação de um velho colega que me trouxe à capital mundial da vina. Eu sei, se você não é de Curitiba/PR deve estar se perguntando de que diabos estou falando. Bom, ao decorrer deste texto você descobrirá não só o que é uma vina, mas o que é a capital do Paraná vista através de um gaúcho que aqui reside a poucos meses.
Este meu olhar sobre a cidade é na origem, portanto, um olhar estrangeiro, de alguém que, se sentindo parcialmente curitibano, como eu me sinto, tem entretanto um pé para fora, um olhar de fora. Mas este olhar de fora talvez seja mesmo um traço constitutivo das nossas capitais, na medida em que o avanço da urbanização brasileira nas últimas décadas foi inchando as cidades maiores de “estrangeiros”, com todos os problemas e consequências dessa história. Numa cidade maior, numa cidade de prédios, numa cidade cuja extensão já vá bem além do tamanho do nosso passo e do nosso olhar, numa cidade sem horizontes, como em geral são os centros urbanos, todas as relações de familiaridade e de intimidade mudam de dimensão.
Curitiba é uma cidade de “estrangeiros”.
Em Curitiba, chama a atenção, em vários ramos e atividades profissionais, o número de não-curitibanos na faixa hoje dos 40 a 50 anos – parece que, em Curitiba, ninguém é de lá. Bem, os filhos desta geração e, provavelmente, da minha geração, já são e serão todos curitibanos, mas são filhos que aprenderam e aprenderão a ver a cidade pelo olhar dos pais. De certa forma, é uma geração que mantém ainda residual o seu toque de estranheza com relação ao espaço em que vive. E Curitiba é também uma cidade de estrangeiros pela própria população que a formou: ucranianos, poloneses, alemães e italianos terão grande relevância na definição mais profunda da cidade. Desde já, faço a ressalva de que esse é tema de sociólogos e historiadores, que saberão definir com mais rigor do que essas impressões a constituição curitibana.
Fazendo um pouco de poesia, é como se nós, moradores de Curitiba, ainda estivéssemos com um pé no século XIX, desembarcados nesta boa terra. Curitiba não tem morro, não tem enchente, não tem terremoto. Meu colega de trabalho chegou a me contar uma lenda mais recente desse paraíso tropical sem os males do trópico, que é uma cidade fria, o que, rigorosamente, é, ou que é um lugar sem assaltos, miséria ou problemas mais sérios. Bem, Curitiba sempre foi uma espécie de paraíso urbano com os parques mais lindos.
Uma verdade sobre Curitiba é que se você está acostumado a viver em voz alta, altamente íntimo de vizinhos, ao chegar em Curitiba levará sempre um primeiro choque: irá sentir que há uma fina camada de gelo entre as pessoas, um sentimento de distância, invisível, mas permanente. Em poucos dias você já não dará tapinhas nas costas com tanta familiaridade e nem visitará ninguém sem nítidos, claros, ostensivos avisos prévios. O “apareça lá em casa”, essa mentira simpática, marca saborosa de todo brasileiro, não se ouve muito em Curitiba.
Eu poderia dizer que Curitiba tem, no inverno, o céu azul mais bonito do Brasil, mas ainda não conheço todas as cidades do nosso país.
Pois bem, essa Curitiba famosa resultou de um projeto urbano de longo prazo muito bem-sucedido, e que em sua essência, para sorte dos curitibanos e dos que aqui vivem, não foi essencialmente modificado ou desestruturado por nenhum dos diferentes governos que ocuparam a cidade.
Curitiba é mesmo intensa, é mesmo linda. Ainda não sei se aqui viverei pelos próximos 10 dias ou 10 anos, só tenho a certeza de que jamais me acostumarei com o fato de chamar salsicha de vina.

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