PAUL McCARTNEY, OUTRA VEZ

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Resolvi deixar passar alguns dias para escrever esse texto. A ficha ainda não caiu. Tá tudo ainda muito confuso na minha cabeça. Um sentimento de “queria mais”, misturado com “eu nunca pensei que ia ver aquilo outra vez” e até um pouco de prepotência em achar que eu “merecia ter visto aquilo outra vez” por ter dedicado tantas horas da minha vida a ouvir, entender, aprender e espalhar a música dos Beatles. Não sei, sinceramente. Não sei bem o que dizer sobre a sexta-feira, 13 de outubro de 2017. Eu que já não sabia o que dizer sobre o domingo, 07 de novembro de 2010. As ideias e as lembranças se misturam. Emoção, êxtase, momentos de pane total, olhos fechados, ouvidos atentos… A visão daquele lugar em que passei grande parte da minha vida, lotado por pessoas dos mais diferentes tipos, das mais diferentes idades, vindas dos mais diferentes e distantes lugares: irmãos de sangue, irmãos da vida, judeus e cristãos, colorados e gremistas, negros, brancos, amarelos, albinos, pais, filhos e filhas, vovôs e vovós, maridos e esposas, namorados e namoradas. Até namorados que viraram marido e mulher, ali, naquele momento. Todos éramos um só! A noite caindo e transformando o céu chuvoso, na mais mágica das noites que Porto Alegre já viveu.

E ali, a poucos metros de nós, ele: um Beatle, curtindo sua alimentação vegetariana e preparando-se para mais um show em sua vida. Mais um estádio lotado em mais uma cidade que havia estado apenas uma vez. Para ele, o exercer de sua (mágica) função. Para nós, o momento que esperamos por toda uma vida. Alguns por longos anos, outros por nem tantos.

As luzes se apagam e o que se sente a partir dali é algo inigualável. Inexplicável. Até na hora de montar o set list, Paul é diferenciado. O início, com ‘A Hard Day’s Night’, funciona como um tipo de “portal” para entrarmos todos em um estágio que… que… que… Não sei, não dá pra explicar. Inexplicável. A primeira frase que ele diz é “I’ts been a hard day’s night…” e fica impossível permanecer de olhos abertos. Para onde fomos depois daquele momento? Também não sei. Parecia que a partir dali, o Beira Rio se transformou numa grande nave espacial (será que era por isso aquele piso cinza que não nos deixava sentir a grama?). Uma nave com cinquenta mil passageiros. Cinquenta mil corpos presentes. Cinquenta mil mentes e almas flutuando, fazendo um Gigante de concreto erguido sobre a água, levantar vôo e nos levar aonde nunca mais iremos novamente. Inexplicável.

Um pouco depois os telões mostram imagens de Lennon e George, que, misturadas as melodias de “Here Today” e “Something” secaram nossas gargantas. As explosões e os fogos de “Live and let Die”, o coral de cinquenta mil vozes em “Hey Jude”, os acordes de “Yesterday”, o prazer em poder ouvir “Let it Be” com a voz de quem a criou, a comunicação em “gauchês”… Foram tantos os momentos que eu poderia ficar horas aqui relembrando, mas até para isso a garganta seca e os olhos se enchem de água. Mistura de prazer, alegria e saudade. Sim, saudade. Sentir “saudade” de um show: é possível explicar isso? Definitivamente não.

O fim da jornada trouxe todos nós de volta ao “chão”. Do pouco que sei explicar, afirmo que a saída da “nave” foi estranha. Poucas palavras. Olhares perdidos. Um sentimento diferente. Meu peito parecia pequeno para o tamanho do meu coração. E assim, diferente, me sinto até hoje. Me sinto uma pessoa melhor, uma pessoa privilegiada por ter vivido aquela “viagem” duas vezes, onde embarquei junto de muitas pessoas que amo e que tenho certeza que saíram de lá de uma forma muito parecida, ou até igual, a minha.

Obrigado Sir Paul McCartney. Obrigado por ter vindo até tão perto de nossas casas outra vez. Obrigado pelo carinho, simplicidade e humildade como nos tratou. Obrigado por se preocupar em falar a nossa língua. Obrigado por deixar bem claro que estás ali por prazer. Obrigado por nos ensinar que é sendo desse jeito que o senhor é, que atingimos a verdadeira realização nas nossas vidas. Obrigado, obrigado e obrigado. Muito obrigado!


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